Baixar em PDF

sacerdote

 A palavra «sacerdote» vem de sacer (sagrado), e dare, dotare (aquele que pode dar o sagrado). Assim o define Santo Isidoro, no seu livro das Etimologias: «sacerdos quasi sacrum dans». Em grego, diz-se hiereus, de hieros (santo).


Em todas as religiões há pessoas constituídas como mediadoras entre a divindade – o sagrado, o transcendente – e o povo. Pessoas que trazem ao povo, da parte da divindade, a palavra ou o oráculo, e que levam à divindade, da parte do povo, a oração ou o sacrifício. Segundo a Carta aos Hebreus, o sacerdote «escolhido de entre os homens, é constituído em favor dos homens, nas suas relações com Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados» (Heb 5,1).

Em Israel, considerava-se que o povo inteiro, face às outras nações, exercia um verdadeiro sacerdócio (cf. Ex 19,6), mas dentro da própria comunidade, foi-se estruturando, para o culto e para a palavra, o sacerdócio de determinadas pessoas, sobretudo da tribo de Levi (os levitas) e os descendentes de Aarão, em particular, quando já no Templo de Jerusalém se organizou o culto a Javé. Também aquí se tratava de aproximar do povo a palavra divina e de oferecer a Deus, da parte do povo, o louvor e os sacrifícios (cf. CIC 1539-1543).

A grande novidade e plenitude do Cristianismo foi a convicção de que Jesus Cristo tinha sido constituído de uma vez por todas como o único e verdadeiro Sacerdote da Nova Aliança, que «não penetrou num santuário feito por mãos de homem, mas no próprio Céu, para se apresentar agora diante da aceitação de Deus em nosso favor», como «Sumo Sacerdote dos bens futuros», oferecendo-se a si mesmo como sacrifício definitivo por toda a humanidade: cf. Heb 3,1; 4,14ss; 9; 10… Cristo é o profeta e mestre que nos vem da parte de Deus e o sacerdote que se oferece a si mesmo como sacrifício em nome de toda a humanidade (cf. CIC 1544-1545).

A Igreja participa do sacerdócio de Cristo: porque «essa função sacerdotal por intermédio da Igreja que, sem cessar, louva o Senhor e intercede pela salvação de todo o mundo, não só com a celebração da Eucaristia, mas também de outros modos, especialmente com o ofício divino» (SC 83; cf. IGLH 7.15), assim como através do seu testemunho e evangelização diante do mundo, sempre unida ao Sumo Sacerdote, Jesus Cristo (cf. SC 7).

Na comunidade eclesial, há dois modos de participar no único sacerdócio de Cristo (cf. CIC 1546-1547). Por um lado, todo o povo cristão, pelo Baptismo e Confirmação, fica constituído como povo sacerdotal (cf. LG 10.31), participando, cada um segundo a sua vocação própria, na missão de Cristo Sacerdote, Profeta e Rei, para bem de toda a humanidade. Este sacerdócio comum do povo baptizado, que tinha caído num certo esquecimento na teologia e na espiritualidade eclesiais, ressaltou sobretudo no Concílio (cf. LG), concretizado nos novos livros litúrgicos e assumido explicitamente no Catecismo (cf. por exemplo, o que diz do sacerdócio dos pais dentro da igreja doméstica que é a família: CIC 1657). Todos os baptizados são «“geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus, para anunciar os louvores” daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável» (1Pe 2,9).

Mas, além disso, dentro do povo sacerdotal, por meio do sacramento da Ordem, surge o sacerdócio «ministerial» dos bispos e dos presbíteros, confiado por Cristo aos Apóstolos e seus sucessores, e que está ao serviço do primeiro, o «comum» de todo o povo (cf. CIC 1120.1547-1553). Estes participam do sacerdócio de Cristo de um modo distinto, recebendo o Espírito que os faz actuar «in persona Christi Capitis» («na pessoa de Cristo-Cabeça») (cf. CIC 1548), para serem pastores da comunidade com a palavra e a graça de Deus (cf. LG 11).


Sábado Santo

É o segundo dia do Tríduo Pascal. Na Sexta-Feira San¬ta, é a Páscoa de Cristo crucificado, no Sábado Santo, a de Cristo no sepulcro, e, no Domingo, a de Cristo ressus¬citado.


Para este dia não há nenhuma celebração sacramental prevista. A comunidade cristã só celebra a Liturgia das Horas, com uma especial recomendação de que, neste dia, o povo seja convidado para a oração de Laudes ou do ofício de Leitura (cf. IGLH 210). Todo o dia tem um tom de silêncio contemplativo do mistério de Cristo que baixou «ao lugar dos mortos», ao «descanso» do sepulcro, ao aniquilamento absoluto e ao seu misterioso encontro com os antepas¬sados, onde pregou «aos espíritos que estavam na prisão da morte» (cf. 1Pe 3,19).

No caminho catecumenal, este dia era dedicado aos últimos actos preparatórios da grande noite baptismal da Páscoa: os exorcismos, as unções, a «redditio» ou a recitação do símbolo, as renúncias, etc.

Com os séculos, foi-se empobrecendo o sentido do Sábado Santo, até que o papa Pio XII, em 1951, reformou a Vigília Pascal e, em 1955, o resto da Semana Santa. Então, restituiu-se a este dia a sua característica primitiva de dia *alitúrgico, devolvendo a Vigília Pascal – que desde o século XVI se celebrava na manhã do sábado, convertendo este dia em «sábado de aleluia» – ao seu lugar verdadeiro, na noite entre o sábado e o domingo. Agora, «a Igreja permanece junto do sepulcro do Senhor, meditando a sua Paixão e morte, abstendo-se da Missa até à solene Vigília ou espera nocturna da Ressurreição».

Uma característica muito antiga de Sábado Santo é o jejum pascal: já desde o século II se prolongava também neste dia o jejum de Sexta-Feira Santa, um jejum não tanto penitencial, mas cúltico, «pascal», um jejum que «se celebra». «Tenha-se como sagrado o jejum pascal: a celebrar em toda a parte na Sexta-Feira da Paixão e Morte do Senhor e a prolongar também no Sábado Santo, se for oportuno, para se chegar às alegrias do Domingo da Ressurreição com elevação e abertura de espírito» (SC 110). 

ablução - Purificação

ablução


Do latim, ab-luere (tirar lavando, purificar). 
O seu sentido pode ser prático: lavar algo que está sujo. Mas, às vezes, fazem-se abluções com intenção simbólica, para exprimir ou conseguir a purificação interior. Assim, entre os judeus, os muçulmanos ou nas religiões orientais, existem diversos tipos de purificações rituais de mãos, pés, cabeça ou de objectos sagrados. 
Entre os cristãos, o Baptismo sempre teve um significado de limpeza e purificação, além do de [re-]nascimento. Também têm carácter simbólico o «lavabo» das mãos, na Missa, e o «lava-pés», no dia de Quinta-Feira Santa. 
Mas, na liturgia actual, chama-se «ablução» sobretudo à acção ritual pela qual, depois da comunhão, o sacerdote purifica os dedos e se lavam os vasos sagrados utilizados na missa. Os primeiros testemunhos destas abluções datam do século IX, e também tinha o mesmo significado o facto de beber vinho ou água, depois de comungar, para purificar a boca, pela razão e clara motivação de respeito pela Eucaristia. 
Agora, a ablução dos dedos é facultativa. E a do cálice, que se faz com vinho e água, ou só com água, faz-se pre¬ferentemente na credência, ou seja, na mesa lateral, e não no altar. 
De entre as diversas possibilidades (não de todo concordantes entre si) que o Missal actual oferece (cf. IGMR 163.183.278.279), a mais recomendável parece ser a de que o cálice seja purificado só com água; que se faça, não no altar e diante de todos, mas na credência (em todo o caso, se se fizer no altar e diante de todos, que seja a um dos lado), e não em seguida, mas depois de acabar a missa («peracta iam missa, populo iam dimisso», como diz IGMR 183), por parte do sacerdote, do diácono ou do acólito. A «água utilizada nessas abluções ou se bebe ou se deita em lugar conveniente» (RCCE 22). 
Não é necessário dar demasiada importância a esta ablução. Há que fazê-la com dignidade, mas não tem uma gran¬de riqueza simbólica e não é necessário que se faça diante de todos. É importante que os momentos após a comunhão constituam um espaço de paz, de interiorização e de oração, tanto para os fiéis como para o presidente e os restantes ministros, e não tanto de limpeza dos vasos sagrados, que se pode fazer bem depois. 

Sábado

Sabbat significa, em hebraico, «descanso». No sétimo dia da criação, Deus «descansou» da sua obra. 
Por ser o dia de descanso, à imitação de Deus, o Sábado converteu-se para os Judeus num dia socialmente muito significativo, com o aspecto humanitário da cessação do trabalho e da igualdade fraterna, entre as pessoas: o homem não deve ser escravo do trabalho nem de outro homem. Além disso, é o dia que lhes recorda e faz celebrar o poder criador de Deus, Senhor do Universo, recordando também a libertação do Êxodo. Sobretudo, o Sábado é para os Judeus o dia da Aliança, que recordam em cada semana, precisamente dedicando-o ao descanso e ao culto a Javé. 
Cristo não ab-rogou o Sábado, reconhecendo os profundos valores que tem para os Judeus, embora tenha criticado a interpretação exagerada que no seu tempo lhe davam algumas escolas rabínicas. Relativizou alguns dos seus aspectos e manifestou-se como «Senhor do Sábado». A comunidade cristã, que continuou a guardar o Sábado, foi dando maior relevo e um conteúdo teológico novo ao dia a seguir ao Sábado, o dia em que Cristo ressuscitou, e que se passou a chamar, em finais do século I, «Dia do Senhor». Não se tratava de uma simples substituição do Sábado pelo Domingo, mas a consciência de que o novo dia dava plenitude e cumprimento ao Sábado. O Domingo foi, desde então, «o dia primeiro» e, ao mesmo tempo, «o oitavo dia», radicalmente centrado em Cristo Glorioso. «O Sábado, que representava o acabamento da primeira criação, é substituído pelo Domingo, que lembra a criação nova, inaugurada na ressurreição de Cristo» (CIC 2190). 
O Sábado continuou a ter, ao longo dos séculos, um sentido peculiar. Muito depressa se destacaram três dias da semana: a sexta-feira, pela morte de Cristo; a quarta-feira, porque na noite de terça-feira foi atraiçoado por Judas; e, mais tarde, também o Sábado. Relativamente ao Sábado, houve ao longo dos séculos uma certa ambiguidade. Por ser o dia sagrado dos Judeus, houve, porém, duas tendências contraditórias, conforme se lhe dava um tom penitencial ou um tom festivo: em Roma, ¬come¬çou a fazer-se jejum neste dia, em sinal de penitência e reparação; enquanto que, no Oriente e noutras regiões, era como uma antecipação festiva do Domingo, e, em muitas regiões, incluindo a celebração da Eucaristia. O aspecto penitencial permaneceu depois só em Têmporas. 
No Ocidente, a partir do século IX--X, em ambiente monástico carolíngio, acentuou-se um tom mariano para o Sábado. Nos Missais oficiais, a partir do século XII, já aparecem missas para a memória de «Sancta Maria in sabba¬to», que, depois, o Missal de S. Pio V, em 1570, já incluirá definitivamente. 
Na Collectio Missarum de Beata Maria Virgine (1986), que oferece muitos formulários, e mais ricos, para estas memórias marianas do Sábado, afirma--se que «a memória de Santa Maria “no Sábado” celebra-se em muitas comu¬nidades como uma introdução ao “dia do Senhor”; assim, enquanto se pre¬param para celebrar a memória semanal da ressurreição do Senhor, contemplam com veneração a Virgem San¬ta Maria, que, “no grande sábado”, quan¬do Cristo jazia no sepulcro, sustentada pela fé e pela esperança, só ela, entre os discípulos, esperou vigilante a ressurreição do Senhor» (n. 36; in EDREL 2037). 

rubrica

De rubor (vermelho), as «rubricas» são as indicações que os livros litúrgicos apresentam nesta cor, enquanto que o texto das leituras ou as orações é a preto. 
Nestas rubricas indica-se o modo de proclamar os textos ou de actuar dos vários ministros: postura do corpo ou das mãos, tom de voz, espaços de silêncio, movimentos, etc. 
Durante séculos, estas indicações estavam nos livros chamados Ordines, enquanto que os Sacramentários traziam sobretudo os textos. Com o tempo, foram-se juntando as rubricas aos textos correspondentes. 
O «rubricismo» é uma concepção da Liturgia baseada primordialmente na rubrica, no «como» da celebração, na norma meramente formal. Esta sensibilidade foi sendo suavizada pelo novo estilo dos livros litúrgicos reformados, que também contém rubricas, para ajudar a uma melhor celebração do mistério, mas com uma margem de flexibilidade e, sobretudo, com a primazia dos textos e a finalidade pastoral da participação de toda a comunidade na acção sagrada. 
Em 1960, depois de João XXIII ter anun¬ciado o Concílio, e prevendo-se a reforma profunda da Liturgia, logo apareceu o Codex Rubricarum, com reformas parciais. Foi este Código que estabeleceu, por exemplo, que o sacerdote não tinha a incumbência exclusiva das leituras da Missa, mas escutá-las com os outros fiéis. Os novos Livros Litúr¬gi¬cos contêm, nos Preliminares ou Orien¬tações prévias, e depois na «letra vermelha», as necessárias orientações ou rubricas para uma celebração mais eficaz.

roquete

De origem nórdica, cujo nome pode provir do francês antigo roquet, faz agora parte do hábito coral do bispo e de outros ministros, e também o vestem os sacerdotes para a celebração dos sacramentos, para a pregação e para as bênçãos. Vestem-no também os acólitos. Sempre sobre a batina. 
É de cor branca, como uma *túnica recortada, com mangas mais ou menos amplas e longas (também há roquetes sem manga), que, inicialmente, chegava até aos joelhos, e, depois, foi-se encurtando. Veste-se sem se ajustar à cintura com o cíngulo. Pela frente tem uma abertura, para se poder vestir com comodidade, abertura que, depois, se aperta com uma fita ou um cordão. 

Rogações

As «rogações», do latim, rogare (pedir), são as orações de petição que uma comunidade faz em determinados tempos ou por algumas intenções especiais, muitas vezes em forma de procissão e com o canto das Ladainhas dos Santos. 
No século V, Mamerto, bispo de Vienne (França), estabeleceu umas rogações em 25 de Abril, com o inconveniente de caírem sempre no Tempo Pascal. 
As rogações – dando graças a Deus, pedindo a chuva, uma boa colheita, o fim de uma epidemia ou a libertação de algum outro mal que ameaça toda a comunidade – relacionam-se sobretudo com as Quatro Têmporas do ano. «Para que se adaptem às diversas regiões e às diversas necessidades dos fiéis, é conveniente que as Conferências Episcopais determinem o tempo e o modo de as celebrar». (cf. NG 45-47, in EDREL 675-677). 

ritual

É, na Liturgia Romana, o livro dos ritos sacramentais. No rito hispânico chama-se *Liber Ordinum. 
Depois de uma evolução de muitos séculos, com livros separados ou unificados (o primeiro ritual impresso foi o *Liber Sacerdotalis, de A. Castellani, em 1523), Paulo V publicou, em 1614, o Ritual Romano, pós-tridentino, do qual se fizeram numerosas edições, com correcções sucessivas. 
Na reforma empreendida pelo Vaticano II não se publicou um Ritual completo, que agrupasse todos os sacramentos, mas Rituais para cada um deles: assim temos o do Baptismo, da Iniciação Cristã dos Adultos, da Confirmação, da Penitência, da Dedicação da Igreja e do Altar, da Profissão Religiosa, das Exéquias, etc. Ou seja, de todos os sacramentos e sacramentais. Seria de desejar que houvesse uma edição mais global, ao menos dos sacramentos da Iniciação, com Preliminares também mais gerais, que se referissem a todos os sacramentos. 
Para além do Ritual Geral da Igreja, há Rituais particulares de famílias religiosas, de dioceses ou regiões, segundo a margem de adaptação que os mesmos livros litúrgicos gerais deixam aos Episcopados, sobretudo nas celebrações da Iniciação cristã, do Matrimónio ou das Exéquias. O Concílio determinou que, «a competente autoridade eclesiástica territorial […] prepare, o mais de¬pres¬sa possível os Rituais particulares, de acordo com a nova edição do Ritual Ro¬mano, adaptados adaptados às necessidades de cada uma das regiões» (SC 63).

rito

Chama-se «ritos» aos gestos e textos que exprimem e configuram uma acção sagrada. A palavra latina ritus poderá derivar do sânscrito riti (disposição, costume, modo de se conduzir). Assinala-se com ritos a nossa actuação na acção sagrada, diante de Deus e da comunidade. Ao longo da história, a palavra «rito, ritos» foi muitas vezes sinónimo de «liturgia». Com efeito, a Liturgia tem muito de ritualidade, com linguagem de gestos e acções muito em consonância com o sistema cultural de um povo, e que nos ajudam a exprimir o que sentimos e celebramos. 
Pelo perigo desse sentido se associar demasiado ao seu aspecto exterior ou cerimonial, agora, preferem-se as expressões «celebração» ou «acção litúrgica» (cf. SC 7.26.112). 
Esta palavra aparece ainda com outra acepção. Fala-se de «ritos» ou «famílias litúrgicas», em referência ao conjunto de ritos, textos, leituras e calendários que compõem, por exemplo, o «rito bizantino», o «rito romano», o «rito hispânico» e outros, como o bracarense, pertencentes a diversas regiões ou famílias religiosas. No Concílio Vaticano II, fala-se dos critérios de reforma que afectam só o rito romano e dos que também interpelam os outros ritos (cf. SC 3), e declara-se que a Igreja «considera iguais em direitos e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos» (SC 4).

reverência

É uma atitude interior para com Deus, para com a Eucaristia, para com a Virgem e para com os Santos e, por extensão, para com a Cruz e os lugares sagrados, que se exprime através de sinais exteriores de respeito e de veneração muito variados, como a incensação, a inclinação de cabeça ou do corpo, o beijo, a genuflexão, etc. 
Em particular, um destes sinais chama-se também «reverência», equivalente à «inclinação» de cabeça ou do corpo. Estas reverências, simples ou profundas, são gestos de expressão corporal para se manifestarem sentimentos de humildade e de respeito. 
Também é costume usar esta expressão, no tratamento formal das pessoas ordenadas, em especial os bispos.